Interdiscursividade e intertextualidade - Fiorin

Tipo de documento:Artigo acadêmico

Área de estudo:Pedagogia

Documento 1

PALAVRAS-CHAVE: Interdiscursividade; Interxtualidade; Ensino. ABSTRACT: In the present article, we discuss the relationship between interdiscursivity-intertextuality and teaching. Bakhtin, though not addressing these two concepts with that terminology, made a major theoretical contribution to his understanding. Therefore, we approach the Bakhtinian view of these relations in discourse, starting from Fiorin (2010), from there, to discuss, first, how the teacher's activity is permeated by them and then to propose an interdiscursive and intertextual approaching for Portuguese language classes. KEYWORDS: Interdiscursivity; Intertextuality; Teaching. Neste artigo, discutiremos inicialmente os conceitos de interdiscursividade intertextualidade a partir de Fiorin, que se baseia nas elaborações de Bakhtin acerca do assunto. Em seguida, discutiremos como o tema se relaciona à atividade do professor, sobretudo do professor de língua portuguesa, e apresentaremos nossa proposta de uso da interdiscursividade e da intertextualidade em sala de aula.

INTERDISCURSIVIDADE E INTERTEXTUALIDADE Fiorin (2010) destaca que estes conceitos não aparecem com esta denominação em Bakhtin. Na verdade, haveria unicamente menção a “intertextual”, e mesmo isso poderia ser fruto de uma tradução imprecisa. Entretanto, é possível encontrá-los de forma dispersa, sobretudo no manuscrito inacabado “O problema do texto”, produzido talvez no início dos anos 1960, sendo esta a principal referência tomada por Fiorin. Entretanto, não apenas nesse âmbito, do cruzamento de enunciados efetivamente conhecidos pelo autor, se estabelece o dialogismo entre enunciados: a rede de sentidos mobilizada é muito ampla, ela remete a todos os enunciados que historicamente contribuem para um determinado acontecimento comunicativo. Isso implica, obviamente, que boa parte da interdiscursividade (entendida como qualquer relação dialógica, de sentido) não é facilmente apreensível.

Além disso, o dialogismo, para cada enunciado, também se refere à recepção por parte dos prováveis “destinatários”. Em toda realização comunicativa, o locutor leva em conta os seus interlocutores, que podem ser tanto um sujeito específico como a sociedade em geral, um “supradestinatário”. Logo, no próprio enunciado, estão contidas previsões de enunciados-resposta. Ela lhe é apresentada apenas como sistema de signos, com “significações”, como os que vemos nos dicionários, mas nunca com “sentidos”, que são sempre instaurados no âmbito da comunicação, dialogicamente. Agora podemos estabelecer, claramente, o que seria interdiscursividade e intertextualidade. Relembrando Fiorin: Há claramente uma distinção entre as relações dialógicas entre enunciados e aquelas que se dão entre textos. Por isso, chamaremos qualquer relação dialógica, na medida em que é uma relação de sentido, interdiscursiva.

O termo intertextualidade fica reservado apenas para os casos em que a relação discursiva é materializada em textos. ” Quando, num enunciado, imitamos, por exemplo, o modo de falar de um determinado grupo social, usando inclusive palavras que pertencem a esse estilo linguístico, estamos estabelecendo, segundo Fiorin, uma relação intertextual, pois o que se manifesta em nosso texto é a materialidade do estilo, apreensível em textos efetivamente realizados dentro dele. O autor ressalta ainda que o dialogismo que compõe um estilo não pode normalmente ser apreendido na intertextualidade. Determinado modo de falar é constituído, obviamente, numa tensão dialógica com outros modos de falar, mas criando sua própria materialidade, sem recorrer à materialidade de outros estilos. O autor, nesse sentido, nos dá o exemplo da poesia parnasiana, concebida para se contrapor à poesia romântica da 3ª geração.

A tensão dialógica entre os dois estilos é muito perceptível. O gênero é uma entidade constitutiva do discurso: “Depois de saber quem é o interlocutor, o locutor escolhe o gênero, e só mais tarde escolhe os meios linguísticos. ” Ou seja, a categoria de gênero nos lembra de que todo ato comunicativo está envolto pelo seu contexto. Ninguém diz nada sem ter em conta para quem diz e em que circunstâncias diz. Sobral e Giacomelli, ao tratarem do tema em Benveniste, parecem nos oferecer uma concepção ainda mais radical de gênero discursivo: “é o gênero que atribui sentido ao texto produzido”. Ou seja, é apenas se pensado desde as suas condições de uso, sua autoria, seu público receptor, que o texto ganha sentido.

É o caso do discurso direto, quando o texto de um determinado autor é trazido para dentro do texto didático. Analisemos o seguinte exemplo, de uma lição fictícia: Como disse Aristóteles, “o homem é, por natureza, um animal político”. Essa palavra, político, está relacionada à pólis, que é como os antigos gregos chamavam a cidade. Logo, ao dizer que o homem é um animal político, Aristóteles quer dizer que nascemos para viver em sociedade, com tudo o que isso implica. Neste enunciado, o professor estaria fazendo, efetivamente, duas referências ao texto de Aristóteles, uma de forma direta, outra de forma indireta. O dialogismo, nesse caso, se manifesta apenas como interdiscursividade, não apenas por ocorrer internamente ao texto fictício do professor, mas também por que ele não está ligado à composição formal das frases (Fiorin, p.

Não há referência direta, material, na própria constituição do texto. Obviamente, a interdiscursividade não se mostra apenas em situações tão restritas assim. Ela ocorre, por exemplo, na elaboração de um exercício. Digamos que o professor inicie uma questão ao aluno da seguinte forma: “Com base no que foi discutido em sala de aula, reflita sobre. NOSSA PROPOSTA DE INTERVENÇÃO Entendemos que uma área que tem muito a ganhar com uma abordagem dialógica, nos termos de Bakhtin, é o ensino de língua portuguesa, tomado em conjunto com o ensino de literatura, que é como eles ainda se apresentam, aliás, na maioria das escolas. Baseamos nossa proposta, sobretudo, no excelente trabalho de Crestani (2013), que procurou abordar intertexto e interdiscurso numa turma de língua portuguesa do 8º ano do Ensino Fundamental.

Acreditamos que nossa dinâmica seja mais indicada para turmas do 2º ciclo do Fundamental e do Ensino Médio. Nela há um tema central: a desigualdade social no Brasil, em especial aquela que até os nossos dias se observa na região Nordeste, e que parece se intensificar nos períodos de seca. Pretendemos abordar quatro textos (na concepção bakhtiniana) que tratam do tema, cada um à sua maneira, sendo eles inclusive de épocas diferentes. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo. Tudo aí, é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive o homem e a lama que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser.

O caranguejo nasce nela, vive nela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Na próxima etapa, pede-se aos alunos para escreverem um novo comentário sobre a canção incialmente apresentada, orientando a eles que incluam desta vez os novos conhecimentos que adquiriram desde a primeira leitura/audição. O objetivo, aqui, é demonstrar como a recorrência a outros textos auxilia na interpretação de um determinado texto. Sugerimos, a seguir, a exposição do episódio “Seca”, do programa “Profissão Repórter”, da Rede Globo, que foi ao ar em Maio de 2017. O objetivo, com esta atividade, é demonstrar como a temática abordada nos textos anteriores está, infelizmente, ainda próxima da nossa atual realidade.

A tarefa final da nossa proposta consiste na elaboração, por parte dos alunos, de um texto, escrito ou oral, que responda à seguinte questão: Como as quatro obras trabalhadas em sala de aula (a canção “Da Lama ao Caos”, o conto “O Ciclo do Caranguejo”, a tela “Retirantes” e o episódio “Seca”, do Profissão Repórter) estão relacionadas? O que há de comum entre elas? CONSIDERAÇÕES FINAIS Tal como sustenta Bakhtin, o dialogismo é constitutivo da linguagem. org. br/wp-content/uploads/2018/08/Inaf2018_Relat%C3%B3rio-Resultados-Preliminares_v08Ago2018. pdf>. Acesso em: 22 set. BAKHTIN, M. upf. br/15jornada/images/stories/trabalhos-12-seminario/03-luciana-maria-crestani. pdf>. Acesso em: 24 set. FIORIN, J. In: SOUZA, S. SOBRAL, A. Orgs. Gêneros, entre o texto e o discurso. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2016.

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